domingo, 17 de agosto de 2008

Hino do Rio Grande do Sul



Como aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o vinte de setembro
O precursor da liberdade


Mostremos valor constância
Nesta ímpia injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra


Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo

António Gedeão - Poema de domingo


Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio algremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.
O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.


É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
Tudo volta ao princípio.
E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.

sábado, 16 de agosto de 2008

pedacinhos de sol


Ipê rosa - Tabebuia pentaphylla



É o primeiro dos Ipês a florir no ano, inicia a floração em Junho,
mas ainda pode ser encontrado com flores até Setembro.
Esta espécie se confunde bastante com outras também de flor
roxa, como a Tabebuia impetiginosa e a Tabebuia heptaphylla,
porém trata-se de uma espécie exótica, proveniente da Argentina.


Formigas


Persigo as formigas
em silêncio
pois as palavras
são carga pesada
para quem não as
conhece.
Ser formiga
é viver num
dicionário subterrâneo
a carpir palavras
em pesadelos.
Geddes

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Fernando Pessoa - quadra popular



Aquela loura de preto
Com uma flor branca no peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.

Caetano Veloso - Trem das Cores



A franja na encosta
Cor de laranja
Capim rosa chá
O mel desses olhos luz
Mel de cor ímpar
O ouro ainda não bem verde da serra
A prata do trem
A lua e a estrela
Anel de turquesa
Os átomos todos dançam
Madruga
Reluz neblina
Crianças cor de romã
Entram no vagão
O oliva da nuvem chumbo
Ficando
Pra trás da manhã
E a seda azul do papel
Que envolve a maçã
As casas tão verde e rosa
Que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul
Quase inexistente, azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar
Teu cabelo preto
Explícito objeto
Castanhos lábios
Ou pra ser exato
Lábios cor de açaí
E aqui, trem das cores
Sábios projetos:
Tocar na central
E o céu de um azul
Celeste celestial

Albano Martins - Ipê Roxo





Ipê roxo,
disseste. E foi
como se o dia,
álamo azul,
se constelasse.

...


Van Gogh sabia das coisas!
e das cores!

Mario Quintana - Se o Poeta Falar Num Gato


Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade...
se falar numa esquina mal e mal iluminada...
numa antiga sacada... num jogo de dominó...
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade...
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol...
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá... Que importa?

Todos os poemas são de amor!

em tempo...



Ama-me quando eu menos o merecer, porque será nessa altura que mais necessitarei.


Dr.Jeckyll

Ricardo dos Reis - Cada coisa a seu tempo



Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol) —

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

porque navegar é preciso ...



Dia de luz

Festa de sol

E um barquinho a deslizar

No macio azul do mar

girassol, giramundo





Van Gogh e seus girassóis..
ternos, eternos, eternizados, iluminados.

o importante é a rosa...



Rose is a rose is a rose is a rose
Gertrude Stein

Pêssegos da casa de D. Gabriela !


Ingredientes:

1kg de pêssegos
1 xícara (chá) de açúcar cristal
2 xícaras (chá) de água

Modo de Preparo:

Em uma panela pressão, coloque os pêssegos, o açúcar e a água e tampe a panela. Quando apitar, deixe somente 5 minutos. Destampe a panela e deixe esfriar.

Alexandre O´Neil - O Ciclista





O homem que pedala, que ped'alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas :
tem o por vir na pedaleira

Alberto Caeiro - Tejo




O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.


Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.


O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Pituba....


Pituba é palavra de origem indígena que significa “sopro”, em alusão ao vento nos coqueirais.

Poemas são pássaros.... - Mário Quintana


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…




Drummond - Hortênsia



A professora me ensina
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
o que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.
O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância.

terça-feira, 12 de agosto de 2008





Oh sua descaradona !!
Tira a roupa da janela!!
Que ver a roupa sem dona
Me lembra a dona sem ela



quadra popular

Saudades de Lisboa - Ary dos Santos







No castelo, ponho um cotovelo
Em Alfama, descanso o olhar
E assim desfaz-se o novelo
De azul e mar
À ribeira encosto a cabeça
A almofada, na cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura
Cidade a ponto luz bordada
Toalha à beira mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida

No terreiro eu passo por ti
Mas da graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha, sorri
És mulher da rua
E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar

Lisboa no meu amor, deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida

azul






Um céu azul de pinheiros.

o amor da flor de cactus


Eu quero o amor
Da flor de cactus
Ela não quis

Eu dei-lhe a flor
De minha vida
Vivo agitado

Eu já não sei se sei
De tudo ou quase tudo
Eu só sei de mim
De nós
De todo o mundo

Eu vivo preso
A sua senha
Sou enganado

Eu solto o ar
No fim do dia
Perdi a vida

Eu já não sei se sei
De nada ou quase nada

Eu só sei de mim
Só sei de mim
Só sei de mim

Patrão nosso
De cada dia
Dia após dia


O Patrão nosso de cada dia - João Ricardo

expressão do verão



a força da cor















A cor possui força própria que independe
da forma a que dá realce.

Moinho de Odemira..também tem sua lógica!




Porque o tempo é mó que mói
e mói
fino,

e se esmaga os mais velhos
é por piedade dos que
chegaram
primeiro,

por extrema piedade,

e por isso também espreme e
sopra espreme e sopra um pouco
de saudade no peito dos que ficam,

porque é mó que mói e mói fino,

e pulveriza os sentimentos
espalha um pouco de poeira
cósmica por sobre os muitos
que perderam seus entes
queridos,

como a semente de
mostarda na antena
parabólica,

para que quem ama não
esteja mais
sozinho,

porque mais se ama depois
de ser
moído,

e a lógica do tempo
é a lógica do
moinho.


Lógica do Moinho - Marcelo Novaes

Fernando Pessoa - Carta Inorgânica do Estado Independente do Bugio


Carta Inorgânica do Estado Independente do Bugio

§ único. - As leis deste Estado, em contrário das do continente adjacente,serão redigidas em português.
N.º 1. - São adoptadas todas as disposições constantes do contrário detodas as leis adoptadas no citado continente adjacente.
N.º 2. - Designadamente, e para facilitar a imigração de artistas, se exclui,de todas as leis e registos de propriedade referentes a casamento, a exigência de diferença de sexo entre os nubentes.
N.º 3. - Este Estado institui para os nacionais a categoria única decidadãos do Bugio, a qual poderá ser obtida por qualquer processo insinuante, sendo permitido o da existência.
N.º 4. - Este Estado institui para os estrangeiros três categorias progressivamente ornamentais - meliante, cevado e javardo - e, como não haverá (em virtude de progressivos decretos e emendas) maneira de distinguir as capacidades respectivas, a promoção será feita, comono continente adjacente, por indistinção.
N.º 5. - Como, segundo o direito moderno, os mortos mandam, serão considerados administradores deste Estado, além de outros de igual categoria que venham a ser oportunamente designados, os cidadãos Quinto Horácio Flaco, Diogo Alves, Dante Alighieri, José do Telhado, John Milton, João Brandão, Conselheiro J. W. von Goethe, William Shakespeare e Manuel Peres Vigário.
N.º 6. - Para evitar qualquer descrédito do banco do Estado, não haverá banco do Estado.
N.º 7. - Este Estado poderá deixar de existir por cansaço.
N.º 8. (e § único) - É desde já nomeada única cidadã honorária deste Estado a Exm.ª ausência do Sr. Júlio Dantas.

Bugio, a alumiar.
Dada em Lisboa, pelo grupo exilado revolucionário do Bugio, nas notas do notário Abel Pereira da Fonseca.


Fernando Pessoa - Uma névoa de Outono o ar raro vela - 5-11-1932

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]



http://pt.wikipedia.org/wiki/Hans_Memling

Hans Memling (Seligenstadt, 1430/1440 — Bruges, 1494) foi um dos mais notáveis pintores flamengos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Sophia de Mello Breyner Andresen - Poema Perdido
















Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão

E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão

Sophia de Mello Breyner Andresen - excerto





Porque será que não há ninguém no mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar
E todos a contarem o futuro
Como se fosse o único presente
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança






foto: Praia do Vau_Portimão

Alexandre O´Neill - Gaivota



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
" O abate da árvore era sempre em
janeiro, no escuro da lua.
De janeiro é que era o próprio para cortar a
madeira."

José Gregório, serrador em Monchique

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Porto Côvo - Rui Veloso











Roendo uma laranja na falésia
Olhando o mundo azul à minha frente,
Ouvindo um rouxinol nas redondezas,
No calmo improviso do poente
Embaixo fogos trémulos nas tendas
Ao largo as águas brilham como prata
E a brisa vai contando velhas lendas
De portos e baías de piratas
A lua já desceu sobre esta paz
E reina sobre todo este luzeiro
Á volta toda a vida se compraz
Enquanto um sargo assa no braseiro
Ao longe a cidadela de um navio
Acende-se no mar como um desejo
Por trás de mim o bafo do destino
Devolve-me à lembrança do Alentejo
Roendo uma laranja na falésia
Olhando à minha frente o azul escuro
Podia ser um peixe na maré
Nadando sem passado nem futuro
Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo



como anêmonas !
quem diria que em alguns meses
haverá ali um pêssego?

sexta-feira, 1 de agosto de 2008


ouvi no Alentejo...



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e ouvi da boca de uma mulher que
dizia ter " bem mais de oitenta anos",
a quadra:

A casa está caiada,
a rua está barrida...
a senhora que ali mora,
pela rua é conhecida...


ecos de:

Esta rua está caiada
Ai, esta casa bem varrida
A senhora qu'é asseada
Ai, na esmola é conhecida