sexta-feira, 12 de setembro de 2008











Fernando Pessoa, 3-9-1924


Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.

Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego -
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu
.

Há já tanto tempo aqui não há nada...apenas o vento.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Ernest Hemingway, certa vez, foi incitado a escrever uma história completa com apenas seis palavras.

Alguns acham que foi na sequência de uma aposta, outros que terá sido um desafio literário para outros autores.

Hemingway escreveu, então, uma história com seis palavras e chamou-lhe o seu melhor trabalho de sempre.

Vende-se: sapatos de bebé, nunca usados.

Quantas palavras usamos para contar uma história?

Por vezes a essência é tão forte que basta muito pouco para mostrar os contornos e a emoção de uma história.

Fernando Pessoa



Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo mundo lá fora;
E um sonho do que poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

calorzinho de primavera






Pink!






pontos de vista



sexta-feira, 29 de agosto de 2008





Como argumentar com uma flor
que tem as cores do verão?
Os detalhes traçados a pincel fino?

Oscar Wilde - O Rouxinol e a Rosa



Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas estamos no inverno e não há uma única rosa no jardim...

Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...

_ Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – disse o Estudante, com os olhos cheios de lágrimas. – Ah! Como a nossa felicidade depende de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.

Eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Tenho cantado o Amor noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

Paul Celan


O poema é solitário.
É solitário e vai a caminho.
Quem o escreve torna-se parte integrante dele.
Mas não se encontrará o poema precisamente
por isso, e portanto já neste momento, na
situação do encontro - no mistério do encontro?
O poema quer ir ao encontro de um Outro, precisa desse Outro, de um interlocutor.
Procura-o e oferece-se-lhe. Cada coisa, cada
indivíduo é, para o poema que se dirige para o
Outro, figura desse Outro.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Florbela Espanca - Ser Poeta



Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além da Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Eugénio de Andrade - O sal da língua


Escuta, escuta: tenho ainda

uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai

salvar o mundo, não mudará

a vida de ninguém - mas quem

é hoje capaz de salvar o mundo

ou apenas mudar o sentido

da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.

É coisa pouca, como a chuvinha

que vem vindo devagar.

São três, quatro palavras, pouco

mais. Palavras que te quero confiar,

para que não se extinga o seu lume,

o seu lume breve.

Palavras que muito amei,

que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade - Os nomes





Tua mãe dava-te nomes pequenos, como se a maré os trouxesse com os caramujos. Ela queria chamar-te afluente-de-junho, púrpura-onde-a-noite-se-lava, branca-vertente-do-trigo, tudo isto apenas numa sílaba. Só ela sabia como se arranjava para o conseguir, meu-baiozinho-de-prata-para-pôr-ao-peito. Assim te queria. Eu, às vezes.

Florbela Espanca - Que diferença !



Quando passas a meu lado,
E que olhas para mim,
Tornas-te da cor da rosa,
E eu da cor do jasmim.

Vê tu que expressões dif´rentes
Da nossa mesma ansiedade:
A cor da rosa é despeito,
A palidez é saudade!

Miguel Torga - Teia de Aranha



Teci durante a noite a teia astuciosa
Dum poema.
Armei o laço ao sol que há-de nascer.
Rede frágil de versos,
É nela que o meu sono se futura
Eterno e natural,
Embalado na própria sepultura.
Vens ou não vens agora, astro real,
Doirar os fios desta baba impura?

Dalai Lama



Uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se em feiúra, a juventude em velhice e o erro em virtude. Nada fica sempre igual e nada existe realmente. Portanto, as aparências e o vazio existem simultaneamente

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Bernardo Soares - Livro do Desassossego


Não sei que vaga carícia, tanto mais branda quanto não é carícia, a brisa incerta da tarde me traz à fronte e à compreensão. Sei só que o tédio que sofro se me ajusta melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa chaga.
Pobre da sensibilidade que depende de um pequeno movimento do ar para o conseguimento, ainda que episódico, da sua tranquilidade! Mas assim é toda sensibilidade humana, nem creio que pese mais na balança dos seres o dinheiro subitamente ganho, ou o sorriso subitamente recebido, que são para outros o que para mim foi, neste momento, a passagem breve de uma brisa sem continuação.
Posso pensar em dormir.
Posso sonhar de sonhar.
Vejo mais claro a objectividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, efectivamente, porque, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da brisa me alegra a superfície da pele.Tudo quanto amamos ou perdemos - coisas, seres, significações – nos roça a pele e assim nos chega à alma, e o episódio não é, em Deus, mais que a brisa que me não trouxe nada salvo o alívio suposto, o momento propício e o poder perder tudo esplendidamente

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

no meio do nada

Difícil manter os olhos abertos diante do cenário monotamente conhecido. A janela do autocarro emoldurava uma paisagem cinza e molhada. As varetas já reumáticas do limpador do párabrisas chiavam um protestozinho ritmado. E a voz: moço! moço! para que lado este ônibus está indo? Pelo jeito o motorista também vinha lutando para manter os olhos abertos, custou a atinar com a pergunta. Olho para o lado e vejo um pescoço jovem e branco, tatuado com o que parece ser um sol azul, de carta de tarot, aparecendo pela metade sob a gola do blusão pesado. Sabe? um tipo de sol gordinho, com bochechas e raios bonachões a espalhar simpatia. Cabelo curto, brinco de pedrinha branca brilhante na orelha direita. Será que é único ou tem um par correspondente na outra orelha? Também eu custo a acordar e atinar com a pergunta do rapaz. Ou será uma mocinha? Difícil ver sob tanta roupa de inverno, a voz é rouca.. Finalmente o motorista consulta o cobrador pelo espelho: ouvi mesmo isto? a meio caminho do destino alguém tem dúvida? E a moça - sim, é uma mocinha! - insiste: para que lado estamos indo? O motorista, vencido, afinal abre a boca: Pelotas.
Ela volta-se e diz: Dormimos! e agora? e de novo ao motorista: a gente ia só até ao trevo, queremos ir para Porto Alegre. Onde é isto aqui? É uma cidade? Dá para voltar?
Nova troca de olhares entre o motorista e o cobrador. Afinal são duas mocinhas. O que é mesmo uma mocinha? uma mulher jovem? ingênua?
Resolvem parar logo na próxima parada para que elas, já quase em Pelotas, peguem transporte para o lado oposto. Mas passa mesmo ônibus aqui? parece o meio do nada. Aqui é cidade? Parece não ter percebido que estavam num ônibus que passava mesmo ali naquele pedaço do nada. O ônibus pára. Descem as meninas. A outra era miúda, cabelos longos, presos, tingidos, com as raizes escuras a gritarem afogadas em cajú.
O ônibus arranca em meio ao nada cinza e molhado, e lá ficam elas à berma da estrada. A miúda sentada no abrigo, pernas cruzadas, com um chapéu de chuva nas mãos a rir. A outra a saltitar em volta dela, gesticulando seus protestos, planos, argumentos.
Alguns quilômetros mais tarde fico matutando se imaginei aquela cena bizarra. Vai ver foi uma miragem causada pela monotonia...uma alucinação!
Mas não, aquele sol azul e gordinho encimado pela Vésper tão brilhante existiu mesmo.Talvez tenha surgido para impedir que o motorista sucumbisse ao compasso da chuva. Ou para nos fazer perceber que todo caminho, por mais conhecido e batido que seja, reserva sempre uma surpresa na próxima curva ou no próximo abrigo de ônibus.
Por que tenho sempre que arranjar essas explicações esotéricas? ai que este ônibus não chega nunca! quero meu chocolate quente!

domingo, 17 de agosto de 2008

Beto Guedes - Quando entrar setembro...


Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
Juntos outra vez
Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar
Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender
Aprender

Circo




Vai, vai, vai começar a brincadeira
Tem charanga tocando a noite inteira
Vem, vem, vem ver o circo de verdade
Tem, tem, tem picadeiro de qualidade
Corre, corre, minha gente que é preciso ser esperto
Quem quiser que vá na frente, vê melhor quem vê de perto
Mas no meio da folia, noite alta, céu aberto
Sopra o vento que protesta, cai no teto, rompe a lona
Pra que a lua de carona também possa ver a festa
Bem me lembro o trapezista que mortal era seu salto
Balançando lá no alto parecia de brinquedo
Mas fazia tanto medo que o Zezinho do Trombone
De renome consagrado esquecia o próprio nome
E abraçava o microfone pra tocar o seu dobrado
Faço versos pro palhaço que na vida já foi tudo
Foi soldado, carpinteiro, seresteiro e vagabundo
Sem juízo e sem juízo fez feliz a todo mundo
Mas no fundo não sabia que em seu rosto coloria
Todo encanto do sorriso que seu povo não sorria
De chicote e cara feia domador fica mais forte
Meia volta, volta e meia, meia vida, meia morte
Terminando seu batente de repente a fera some
Domador que era valente noutras feras se consome
Seu amor indiferente, sua vida e sua fome
Fala o fole da sanfona, fala a flauta pequenina
Que o melhor vai vir agora que desponta a bailarina
Que o seu corpo é de senhora, que seu rosto é de menina
Quem chorava já não chora, quem cantava desafina
Porque a dança só termina quando a noite for embora
Vai, vai, vai terminar a brincadeira
Que a charanga tocou a noite inteira
Morre o circo, renasce na lembrança
Foi-se embora e eu ainda era criança


Sidney Miller