Quando olhamos para as casas alguma coisa estremece alguma coisa chama alguma coisa espera
Olho-te com os olhos das casas respirito ao abrir cada janela e atravcesso as portas como se penetrasse o teu corpo angustiado e nu conquistando o interior da casa o centre do teu ventre soltando meu gruto quando o coração em vértice desce para as mesas e um fino pó se ouve cair das lâmpadas
Dentro da casa agitam-se as bandeiras do ar quando os teus passos se moldam ao silêncio e tudo é escuro espesso e escuro e nada se passa nho meu peito nada em festa corre para as tuas mãos Se nos olhamos nos olhos olhamos para as casas porque as casas têm um sol bancos de jardim e lâmpadas que se acendem apenas com os beijos
Esquecemo-nos de tudo e olhando construimos as casas habitamos as casas amamos as casas pertencemos às casas e morremos nas casas procurando conhecer o seu último segredo sua voz suas ruínas
As casas vestem o silêncio com uma roupa dura entregam-no depois em nossas mãos e permitem-nos palavras boca a boca e gestos quase puros porque nenhuma dor magoa a sua própria morte
Todas as casas são o interior da noite
JOAQUIM PESSOA, in OS DIAS DA SERPENTE, 1981 (Obra Poética 03, Litexa, 2002)